"Sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino". Com essa frase, Paulo Freire resume a importância da inquietação, da observação, que, segundo ele, são alimentos para o desejo de saber mais, ir além. A curiosidade faz parte do instinto humano, sendo a principal responsável pela exploração e investigação do universo.
Freire defende, em uma de suas obras sobre pedagogia, a indissociabilidade entre ensino e pesquisa, pois faz parte da natureza da prática docente indagar, buscar, pesquisar. “Ele dizia que a curiosidade epistemológica é construída por meio do exercício crítico da capacidade de aprender. É a curiosidade que se torna metodicamente rigorosa e, se opõe à curiosidade ingênua que caracteriza o senso comum”, explica a pesquisadora Juliana Reis.
Poucos são os que usam da curiosidade para buscar uma solução, inovar, aprender além do óbvio, descobrir mais sobre um assunto que já parecia dominado. Talvez por uma questão cultural, permanecer na normalidade parece mais fácil e mais cômodo. Por esta razão, Paulo Freire propõe que esse método, do estímulo à curiosidade, seja aplicado desde pequeno, ainda nas escolas.
CRIANÇAS
“Mãe, porque o céu é azul?”, “Pai, como eu nasci?” são dúvidas comuns de uma criança que está começando a descobrir o mundo. Segundo psicólogos, essas questões começam a surgir na faixa etária entre três e seis anos – a fase dos “porquês”. Nas sábias palavras de Paulo Freire, ele dizia que: “A criança é imensamente curiosa, é esta curiosidade que a leva à busca de conhecimentos sobre o mundo que a rodeia, observando, questionando”.
Segundo Paulo Freire, a criança chega à escola carregada de conhecimentos próprios e, se bem trabalhados, facilitam todo o processo de aprendizagem. Ele explica que esse processo deve ser dinâmico, pautado no contexto da criança, e que o educador não pode querer ser o detentor do conhecimento, mas sim um mediador.
Nessa concepção, a escola é um local de apreensão crítica do conhecimento significativo através do diálogo e do intercâmbio. Freire afirma que: “É a escola que estimula o aluno a perguntar, a criticar, a criar, onde se propõe a construção do conhecimento coletivo, articulando o saber popular e o saber crítico, científico, mediados pelas experiências no mundo”.
ESTUDOS
De acordo com uma pesquisa realizada pelo psicólogo norte-americano Todd Kashdan, da Universidade George Mason, a curiosidade é fundamental para o bem-estar. Kashdan descobriu que pessoas curiosas apresentam níveis mais elevados de satisfação com a vida do que os demais. Outro trabalho sugere que os benefícios da curiosidade derivam do prazer intrínseco de descobrir mais, e uma maior probabilidade de gastar tempo com os outros.
Em psicanálise, a curiosidade se apóia em um impulso chamado “pulsão de domínio”. Os seres humanos têm a tendência de dominar os estímulos e as tensões que atingem a mente. As tensões, chamadas de pulsões, inauguram os desejos, as vontades, as motivações quando encontram um sentido dentro do psiquismo. Quando as tensões não encontram ligações na mente, ficam buscando compulsivamente uma codificação.
Quando uma tensão não encontra um sentido, ela busca ser descarregada no corpo, ou em ações sem controle. E, quando o instinto fala mais alto, essa curiosidade acaba dominando a mente. Mas nem sempre essa desejo incontrolável pelo saber é positiva.
O LADO NEGATIVO
Você sabe de onde surgiu o ditado popular “a curiosidade matou o gato”? A expressão nasceu na Europa, na Idade Média. Os gatos não eram bichos muito queridos, e os mais supersticiosos acreditavam que os gatos pretos traziam má sorte. Por isso, as pessoas preparavam armadilhas para pegá-los. Ao se aproximar para “analisar” o artefato – os animais também são curiosos -, os felinos eram capturados e mortos.
Alguns termos populares podem designar alguém demasiadamente curioso, por exemplo: xereta, bicão, intruso, enxerido, olho de tandera, metido etc. Mas quando é que a curiosidade realmente vira algo nocivo? De acordo com a psicóloga Valéria Vasconcelos, ela se torna perigosa quando está associada a sentimentos como desconfiança, insegurança, raiva e ciúme.
“Ser curioso é diferente de ser ‘bisbilhoteiro’. Quando a pessoa quer saber algo e apela para meios ilícitos ou desrespeitosos, a curiosidade passa a ser algo negativo. É normal ficar curioso, principalmente com assuntos proibidos, mas é preciso controlar as emoções e respeitar o limite ético e moral”, explica.
O fato é que essa atitude investigativa começa a ser usada como instrumento para manipulação e invasão de privacidade. Uma vendedora, que não quis se identificar, conta que já teve problemas por causa da curiosidade excessiva. “Uma vez eu abri a gaveta de um colega de trabalho e vi uns papeis. Olhei para os lados para ver se não tinha ninguém, peguei e li. Não era nada demais, mas ele chegou, me viu e o clima ficou bem chato. Perdi a confiança dele”, diz.
Casos como esse reforçam que a curiosidade é inata ao ser humano. Às vezes, a pessoa não tem a intenção de “bisbilhotar” a vida alheia, mas, ao surgir uma situação favorável, o instinto fala mais alto e a tendência é seguir com as “investigações” até conseguir as respostas.
O estudante Thiago Resende afirma que nunca teve problemas em relação a isso, mas confessa que fica muito curioso quando a pessoa “faz suspense” em um assunto interessante. E ele dá uma dica de como consegue “arrancar” confissões das pessoas: “Não chegar falando o que quero saber. Vou puxando assuntos relacionados até conseguir a resposta sem que a pessoa perceba”.